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Dois Papas e outros filmes que abordam a ditadura para ver nas férias

Camilo Vannuchi

02/01/2020 13h11

Dois Papas não foi o primeiro filme de 2019 a despertar polêmica ao tratar da ditadura militar na América Latina. Nem o único que merece ser visto antes que as férias acabem.

Foi uma coluna da Sylvia Colombo, da Folha de S.Paulo (exclusiva para assinantes), que chamou minha atenção para o filme Dois Papas (Reino Unido/Itália/Argentina/EUA, 2019, na Netflix), de Fernando Meirelles. O longa de ficção narra um encontro hipotético entre o então papa Bento XVI e seu futuro sucessor, hoje papa Francisco. Na trama, os dois personagens são apresentados como antítese um do outro: o cardeal alemão Joseph Ratzinger (Anthony Hopkins), uma das opções mais conservadoras no conclave de 2005, que o elegeu, e o cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce), progressista nos dogmas, nos costumes e na ideologia de classes. Eis que, decidido a renunciar, em 2012, Bento XVI "escolhe" Bergoglio como seu sucessor, convencido de que havia falhado no cargo e que a igreja católica, naquele momento, precisava de alguém como Bergoglio.

A certa altura, quando o papa expõe ao colega a ideia de ser substituído por ele no cargo, o futuro papa Francisco responde que seria impossível. Põe-se a narrar, então, sua atuação durante os anos de chumbo da sangrenta ditadura militar na Argentina. Em sua percepção, cometera o grave erro de tentar dialogar com a repressão, disposto a proteger a ordem dos jesuítas, que comandava, e feito muito pouco para salvar a vida de opositores, incluindo a melhor amiga, assassinada pelos militares. Pelo menos dois colegas de batina, envolvidos em missões populares na área rural do país, foram presos e torturados sem merecer uma ação mais firme de sua parte. De volta a 2012, o personagem retoma aquele passado em conversa com o papa, quatro décadas depois, por ter convicção de que seu comportamento à época deveria impedi-lo de levar adiante o plano de Bento XVI. "Fui covarde, colaborei com a repressão, não posso ser papa", é o que busca dizer. "Você fez o que estava a seu alcance e salvou muita gente", responde Ratzinger. "Até quando a indústria cultural vai proteger o passado nebuloso do papa?", cravou a jornalista Sylvia Colombo no título de sua coluna.

Para decidir se a autocrítica feita ao longo de muitos minutos pelo personagem de Fernando Meirelles é suficiente para reabilitá-lo perante a igreja e a opinião pública, ou se a cobrança feita por Sylvia se justifica, recomenda-se ver o filme. Na contramão da jornalista, é possível que o espectador saia da sessão com a sensação de que é Ratzinger, e não Bergoglio, quem está devendo um mea culpa à sociedade: para explicar o escândalo no banco do Vaticano, o acobertamento de casos de abuso sexual envolvendo religiosos, e também o perfil inquisidor que norteou sua trajetória, sobretudo como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, quando foi responsável por silenciar o então frade Leonardo Boff e outras importantes iniciativas da igreja progressista e da teologia da libertação.

 

Democracia em Vertigem

Em meados do ano passado, Democracia em Vertigem (Brasil, 2019, na Netflix), de Petra Costa, levou para a tela a polarização que rachou o país a partir de 2015: de um lado, antipetistas e bolsonaristas; de outro, o campo formado por aqueles que denunciavam um golpe contra Dilma, questionavam os métodos da Lava Jato, manifestavam-se pelo "ele não" e, mais recentemente, pediam a liberdade do ex-presidente Lula. Embora se concentre num período mais recente da História do Brasil, sobretudo entre as jornadas de junho de 2013 e a eleição de 2018, o filme retoma a ditadura militar para melhor construir o contexto, tanto familiar quanto histórico.

Petra é filha da geração de 1968. Seus pais, estudantes, foram presos no congresso clandestino da UNE, em Ibiúna, às vésperas do AI-5. Militaram na Ação Popular (AP) e no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), então na ilegalidade, o que os levou a se mudar de Belo Horizonte para Londrina, onde atuaram no movimento estudantil e em formação popular, na mesma época em que o comando central do partido organizava a Guerrilha do Araguaia. Enquanto isso, seu avô materno, Gabriel Andrade, via a construtora da qual era sócio fundador, a Andrade Gutierrez, firmar contratos milionários com os generais-presidentes e com os governadores nomeados, fazendo o faturamento da empreiteira se multiplicar. Em meados da década de 1970, a Andrade Gutierrez já era uma das cinco maiores construtoras do país.

Democracia em Vertigem foi o segundo documentário mais visto na Netflix Brasil em 2019. Considerado um dos melhores filmes do ano pelo New York Times, é um dos 15 finalistas na disputa pelo Oscar de Melhor Documentário (leia coluna anterior deste blog sobre o assunto). Pela primeira vez, um filme dirigido por uma brasileira, sem codireção com nenhum cineasta norte-americano, concorre à estatueta. Como se previa, o documentário provocou acirramento de ânimos por ocasião da sua estreia, em junho passado. Xingado pela "direita" e aclamado pela "esquerda", o filme suscitou pelo menos um debate nas redes que bagunçou a lógica binária dos "a favor" e "contra".

Pouco tempo após a estreia, a cineasta foi acusada de forjar a história de sua família ao falar da clandestinidade dos pais. Segundo a crítica, seria mentira, ou pelo menos exagero, dizer que os pais de Petra Costa viveram na clandestinidade, uma vez que eles continuaram visitando a casa dos avós de Petra uma vez por ano, na época da Natal. Ora, não eram os avós os clandestinos. Quem tinha paradeiro desconhecido, endereço sigiloso, e abandonara uma vida abastada em Belo Horizonte para atuar na clandestinidade com movimento estudantil e educação popular em Londrina foi a mãe de Petra, não o avô. A rigor, o fato de militar no PCdoB, então na clandestinidade, já basta para configurar a clandestinidade de que fala o filme, mesmo que os pais da cineasta não tenham mudado de identidade, providenciado documentos falsos ou desaparecido para sempre. Um dos méritos do filme, talvez o maior deles, é justamente estabelecer as relações sociais e históricas entre o passado repressivo — desde a escravidão — e os rompantes pouco democráticos que caracterizam o levante recente, que conduziu Temer e, mais recentemente, Bolsonaro, ao poder.

 

Torre das Donzelas

Dilma Rousseff é uma das personagens deste filme de Suzanna Lira. Vencedor dos prêmios de melhor documentário no Festival do Rio, no Festival de Brasília e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2018, Torre das Donzelas (Brasil, 2018, no GNT) entrou em circuito comercial no segundo semestre de 2019. Na tela, o cotidiano das mulheres encarceradas entre 1969 e 1972 no pavilhão conhecido como Torre das Donzelas, a ala feminina do presídio Tiradentes, em São Paulo, que abrigou presos políticos.

O edifício, um dos mais importantes lugares de memória de São Paulo, não existe mais. Foi demolido nos anos 1980 para dar lugar à estação Tiradentes do metrô. Um dos méritos do filme é justamente reconstitui-lo. Combinando ternura e garra, mais de uma dezena de militantes presas se encontraram a convite da produção e ajudaram a criar o cenário — a disposição dos ambientes, as camas, a cozinha, os livros e discos que embalaram a temporada de convivência forçada — e compartilharam a intimidade do que viveram ali quando eram muito jovens, quase meio século atrás.

Na torre, mulheres como Rita Sipahy, Dulce Maia, Cida Costa, Rose Nogueira, Nair Benedicto, Rioco Kayano, Ilda Martins da Silva e outras "terroristas" se juntavam após dias ou semanas de tortura nos porões do DOPS ou do DOI-CODI. E encontravam, umas nas outras, o afeto, a cumplicidade e os estímulos para curar feridas e seguir em frente. Resistir para reexistir. "Acho que nós demos felicidade para nós na pior situação possível", diz a ex-presidenta, entrevistada para o filme, embora não tenha visitado a locação nem se reunido com as demais mulheres durante as gravações (feitas em 2016, na mesma época em que Dilma se defendia no processo de impeachment).

 

Deslembro

Deslembro (Brasil, 2018, para alugar no Now, no Google Play e na Apple TV) se debruça sobre um período ainda pouco explorado no cinema: o pós-anistia. Mais precisamente, o longa de ficção aborda os reflexos da violência e dos crimes praticados pelo Estado durante a ditadura — a tortura, a execução de opositores, o desaparecimento forçado e a ocultação de cadáveres — na geração dos filhos da resistência.

A adolescente Joana (Jeanne Boudier) é filha do desaparecido político Eduardo (Jesuíta Barbosa). Sua mãe, Ana (Sara Antunes) partiu para o exílio na França após a morte do companheiro, construiu uma nova família com o chileno Luis (Julian Marras), também exilado em razão da ditadura de Pinochet, e agora estão todos de mudança para o Brasil, atraídos pela lei da anistia. Joana tem dois irmãos mais novos, Paco e Leon. "Como podemos ter certeza de que ele morreu", pergunta a jovem Joana à avó paterna, Lucia (Eliane Giardini), uma das muitas mulheres que, em busca de respostas, constituíram comissões de familiares de mortos e desaparecidos, juntaram documentos, pressionaram como podiam as instituições e começaram a construir o que hoje chamamos de direito à memória e à verdade.

O filme é também resultado de um olhar sensível e claramente autobiográfico da diretora. Flávia Castro tinha 5 anos quando deixou o Brasil, exilada, junto com o irmão mais novo. Morou com os pais no Chile de Allende e se mudou para a França em razão do golpe militar de 1973, quando Allende foi assassinado e substituído pelo ditador Pinochet. A dificuldade de adaptação de Joana na volta do exílio é inspirada no estranhamento que Flávia sentiu quando fez a mesma travessia de volta ao Brasil. A mistura de línguas, a relação com a literatura e com a música, a busca por entender o passado. O filme traz também o tema do trauma, do impacto que a ditadura pode causar — e causou! — em crianças muito novas, por diferentes razões: os silêncios, as ausências, eventuais sentimentos de culpa e outros, sem contar os múltiplos casos de crianças submetidas a tortura junto com os pais, sequestradas pelos militares ou feitas órfãs pela repressão. "Ele é uma forma de dizer que a gente tem que falar do passado, que teve uma ditadura, sim, que o país tem que fazer um trabalho de memória que não está sendo feito", afirmou a diretora em entrevista ao blog Brasil em Cena.

 

Outros filmes

Outros dois títulos que ainda não assisti e que estão na lista para a próxima semana são os documentários Massacre no estádio: a história de Víctor Jara (EUA, 2019) e El Pepe: uma vida suprema (Argentina/Uruguai/Sérvia, 2019), ambos disponíveis na Netflix. O primeiro, dirigido por Bent-Jorgen Perlmutt, aborda a produção musical do cantor e compositor chileno Victor Jara e sua execução pela ditadura chilena no Estádio Nacional de Santiago, em 1973. O segundo, dirigido por Emir Kusturica, se constrói em torno de uma longa entrevista com o ex-presidente uruguaio José Mujica sobre sua militância política, o longo período de 12 anos que passou na prisão, a tortura, a redemocratização e o que aprendeu na Presidência da República. Um filme que parece obrigatório para quem assistiu ao ficcional Uma noite de 12 anos (2018) e a todos que querem entrar em 2020 com a energia renovada para a defesa da democracia. Vamos a eles.

 

 

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

Camilo Vannuchi