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Um Oscar para a democracia

Camilo Vannuchi

19/12/2019 00h27

 

>> Na disputa pelo prêmio de melhor documentário de 2019, Democracia em Vertigem narra alguns dos episódios mais representativos da ditadura militar e do período de redemocratização para melhor explicar o colapso recente, marcado pelo afastamento de uma presidenta sem crime, a prisão de seu antecessor e a eleição de um presidente que despreza o diálogo, flerta com o autoritarismo e faz apologia à tortura. Abaixo, meus 14 centavos sobre o filme, a diretora e a indicação.

  1. Foram 159 filmes inscritos na categoria. Entre os 15 finalistas anunciados nesta semana e que integram a short list — como críticos e cinéfilos costumam se referir aos selecionados —, estão quatro produções originais da Netflix, caso do concorrente brasileiro. A despeito das produções norte-americanas serem maioria, há filmes ambientados na Síria, na China, na Macedônia do Norte…
  1. A short list está impregnada de política. Tem filme sobre a influência da Cambridge Analytica nas eleições (Privacidade hackeada), sobre a trajetória de quatro mulheres que debutaram no poder legislativo norte-americano em 2018, entre elas Alexandria Ocasio-Cortez (Virando a Mesa do Poder), sobre a política de filho único na China (One Child Naction), sobre a corrida espacial em tempos de Guerra Fria (Apollo 11 e The Apollo) e muitos outros.
  1. A IndieWire coloca Democracia em Vertigem entre os cinco favoritos. Seus quatro principais adversários são Apollo 11, One Child Naction, Indústria Americana (sobre choque de cultura entre chineses e americanos numa fábrica de Ohio comprada por investidores chineses) e o sírio For Sama (que narra a trajetória de uma mulher ao longo de cinco anos em meio à guerra civil em Aleppo). Para A. O. Scott, crítico sênior do New York Times, Democracia em Vertigem é um dos 10 melhores filmes do ano. De sua lista, apenas o filme brasileiro e Honeyland, um documentário da Macedônia sobre produção de mel, concorrem ao Oscar de melhor documentário.

Deputados mordem um boneco inflável com a imagem de um Lula presidiário durante votação pela abertura do processo de impeachment de Dilma. Entre eles está Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército e deputado federal por sete mandatos. Em 2018, seria eleito presidente do Brasil

  1. Democracia em Vertigem foi batizado de The Edge of Democracy na versão em inglês. É assim que aparecerá escrito no envelope a ser aberto na cerimônia de 9 de fevereiro. É bom estar com os ouvidos atentos na hora de acompanhar o anúncio.
  1. O Brasil já disputou outras três vezes o Oscar de melhor documentário. A primeira delas, quarenta anos atrás, com Raoni (Jean-Pierre Dutilleux e Luiz Carlos Saldanha, 1978), uma coprodução Brasil-França-Bélgica sobre o cacique caiapó recentemente ofendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Voltou a figurar na short list em 2011, com Lixo Extraordinário, em que os diretores Lucy Walker, Angus Aynsley e João Jardim exploram o processo criativo do artista plástico Vik Muniz a partir de material recolhido num aterro sanitário. E voltou a Los Angeles em 2015, com O Sal da Terra, uma sensível e engajada homenagem ao fotógrafo Sebastião Salgado dirigida por seu filho Juliano Salgado e por Wim Wenders.

Petra Costa, a diretora, dedicou-se por quase três anos à realização do filme. Com ele, busca alertar sobre a fragilidade da democracia e o avanço de projetos autoritários, não apenas no Brasil

  1. Petra Costa, a diretora, nasceu em julho de 1983, meses antes do início da campanha das Diretas. Tinha 5 anos quando o Brasil ganhou uma nova Constituição Federal, prontamente apelidada de "cidadã", e 6 quando seus pais puderam votar para presidente pela primeira vez, numa eleição marcada por promessas vazias de combate à corrupção e pela consagração das fake news — muito antes de os americanos inventarem o termo.
  1. Petra retoma o passado de sua família para traçar paralelos entre sua trajetória e a democracia brasileira. Em 1948, seu avô materno foi um dos três fundadores da construtora Andrade Gutierrez, que cresceu, firmou centenas de contratos e se consolidou entre as cinco maiores do Brasil durante a ditadura militar. Já sua mãe e seu pai atuaram na resistência à ditadura e ingressaram muito jovens na Ação Popular (AP), em 1967, e a partir de 1969 no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), então na ilegalidade.
  1. Um dos episódios lembrados no filme foi o congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em 1968 num sítio em Ibiúna, a 70 km de São Paulo. Como o PCdoB, a UNE estava na ilegalidade. Mesmo assim, seus líderes optaram por organizar o 30º congresso da entidade e alugaram o espaço. No segundo dia, o local foi descoberto e o encontro foi desmantelado pela polícia. Cerca de 700 estudantes foram detidos e fichados no Dops, entre eles Marília e Manoel, os pais de Petra. Os retratos dos dois, fichados pela polícia política, são exibidos no documentário, bem como uma rara imagem do jovem casal no congresso.

Manuel Costa e Marília Andrade fichados no DOPS de São Paulo após serem detidos no congresso clandestino da UNE em Ibiúna (SP), em 1968

  1. Marília e Manoel viveram na clandestinidade entre novembro de 1968 e meados da década seguinte. Não chegaram a usar nomes e documentos falsos, mas abandonaram suas vidas pregressas e se mudaram para Londrina, no Paraná, sem que as respectivas famílias soubessem seu paradeiro. Uma vez por ano, iam a Belo Horizonte encontrar as famílias, mas nenhum parente jamais pôde visitá-los ou telefonar para eles ao longo de cinco anos. Ali, assumiram novas profissões: ele, caixeiro viajante; ela, professora de alfabetização de adultos. Por trás da fachada de casal proletário, seguiram atuando no PCdoB, na época envolvido com a organização de um foco guerrilheiro no Araguaia, atividade na qual o casal não se envolveu. Anos mais tarde, Marília soube que dirigentes do partido cogitavam enviá-los para a guerrilha, mas o nascimento da primeira filha, Elena, acabou provocando alterações nos planos.
  1. Marília ficou muito próxima de Pedro Pomar nos anos 1970. Foi sua assessora pessoal e o considerava uma espécie de mentor. Em 1976, o choque: Pedro Pomar foi assassinado numa ação da repressão. Agentes do Exército metralharam a sede clandestina do Comitê Central do PCdoB, uma casa na Rua Pio XI, na Lapa, em São Paulo, onde estava reunida a alta cúpula do partido. Além de Pomar, foram executados os também dirigentes Ângelo Arroyo e João Batista Drummond. O episódio também está no filme, assim como a fotografia da casa da Lapa após a chacina, com os corpos de Pedro e Ângelo estendidos no chão, alvejados por dezenas de balas. Anos depois, Petra seria batizada em homenagem a Pedro.

Em dezembro de 1976, o comitê do PCdoB na Lapa é metralhado pelo Exército. Os dirigentes Ângelo Arroyo, à esquerda, e Pedro Pomar, à direita, morrem na hora

  1. Democracia em Vertigem narra também a eleição de Collor. Petra tinha 6 anos. A irmã mais velha, Elena, 19. Entusiasmada com a hipótese de vitória de Lula, Elena trocou a euforia pela tristeza. Não bastasse a derrota e a consagração de um político histriônico, agressivo, populista, que construíra uma campanha fundamentada em mentiras, a vitória do político alagoano contribuiu para uma crise sem precedentes do cinema nacional e do setor audiovisual como um todo. Elena, atriz, mudou-se para Nova York em busca de perspectiva. Não voltaria mais ao Brasil.
  1. Quando uma democracia começa e quando ela termina? A partir de que momento podemos chamar um governo autoritário e violento, que persegue e censura, pela alcunha de ditadura?
  1. O Brasil era governado por Fernando Henrique Cardoso quando conheci Petra. Eu tinha 16 anos. Montei uma peça de teatro no condomínio em que ela morava, e ela, aos 12, foi assistir. Que vergonha. Quinze anos depois, nossos caminhos se cruzaram outras duas vezes. Em 2009, fui entrevistar seus avós na mesma época em que ela gravava seu primeiro filme, Olhos de ressaca, um curta metragem sobre os avós e o envelhecer. Pouco depois, entre 2011 e 2013, escrevi uma biografia de seu avô, Gabriel Andrade. Enquanto trabalhava na biografia, em 2012, fui ver seu primeiro longa na Mostra de Cinema de São Paulo. Publiquei uma crítica sobre o Elena no site da revista que eu editava, a Época São Paulo. Acabei convidado para fazer a comunicação do filme por ocasião do lançamento.
  1. Colaborei brevemente com Democracia em Vertigem. Em meados de 2018, na reta final da produção, dei uma rápida consultoria sobre o processo de condenação e prisão do Lula e também sobre o impeachment de Dilma para ajudar a equipe do filme a redigir o texto final para o voice over, a narração gravada pela própria Petra. Hoje, sou apenas um torcedor. O Brasil é Democracia em Vertigem no Oscar 2020.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

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