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A vez em que o Governo Federal ousou esconder uma epidemia

Camilo Vannuchi

19/03/2020 01h04

Se fosse hoje, era bem capaz que o presidente da República chamasse a epidemia de "fantasia" e pedisse a um grupo de empresários amigos que patrocinasse uma campanha massiva (e espontânea, talquei?) de disparos de mensagens com o intuito de desacreditá-la. Como em 1971 não havia WhatsApp e cada redação de jornal dispunha de um censor a postos para derrubar matérias e "sugerir" alterações, o general Emílio Garrastazu Médici resolveu o impasse sem sequer se atrapalhar com máscaras cirúrgicas: decretou a censura prévia de qualquer nota, coluna ou reportagem que falasse em meningite. Decretou sem decretar, ou seja, de forma discreta, velada, sem se expor. O que os olhos não veem a opinião pública não sente, algum assessor deve ter soprado em seus ouvidos.

Médici sabia que a divulgação de uma epidemia como aquela poderia atrapalhar os resultados de sua administração na economia. Eram dias de "milagre econômico". De "ame-o ou deixe-o". Eram também dias de opressão, tortura, execução de opositores nos porões do DOI-Codi e na Casa da Morte, pelotões do Exército marchando pelo Sul do Pará a fim de desmantelar os focos guerrilheiros instalados no Araguaia. Dias, também, de exaltar a bandeira auriverde e ostentar com orgulho a camiseta amarela usada pela primeira seleção de futebol a amealhar três Copas do Mundo.

Desde o início de 1971, a cidade de São Paulo testemunhou um aumento vertiginoso no número de casos. A onda de contágios começou nos bairros periféricos e, aos poucos, se expandiu rumo à zona central e às classes média e alta. Em maio de 1971, o distrito de Santo Amaro, na Zona Sul, foi o epicentro do surto segundo o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Em novembro, chegou ao distrito de São Miguel Paulista, na Zona Leste. Em junho de 1972, a doença indicava aumento exponencial das notificações na Zona Norte, nos bairros de Santana e Tucuruvi. Somente no início de 1973, dois anos após o início da epidemia, a meningite chegou à Lapa, na Zona Oeste, espalhando-se dali para o Centro.

A letalidade atingiu 14% dos enfermos em 1972. As principais vítimas eram crianças de até 5 anos de idade. Médici preferia que ninguém soubesse. Seu governo orientou autoridades estaduais e municipais a tornarem-se cúmplices na ocultação da doença, valendo-se inclusive do argumento de que não deveria alarmar a população. Acredita-se que os corpos de parte das vítimas fatais da doença em São Paulo, sobretudo de crianças pobres, tenham sido enterrados como desconhecidos no cemitério de Perus e transferidos para a vala clandestina de Perus em 1975, uma forma de ocultá-los e promover a subnotificação dos óbitos.

Médici conseguiu protelar a divulgação da epidemia até o final de seu governo, quando a doença já batia à porta da elite. Em janeiro de 1974, o número de pessoas contaminadas era seis vezes maior do que no mesmo mês do ano anterior. Em maio, logo após a posse de Ernesto Geisel, foi finalmente criada a Comissão Nacional de Controle da Meningite, responsável por montar uma estratégia de enfrentamento. Não havia mais como manter a meningite em sigilo.

Entre o segundo semestre de 1974 e o primeiro semestre de 1975, enquanto as vacinas encomendadas à França não ficavam prontas, as autoridades registraram uma média superior a uma morte por dia em razão da doença, totalizando 411 óbitos ao longo de 1975.

Quando as vacinas finalmente chegaram, foi feita uma campanha de vacinação com dimensões inéditas, totalizando 80 milhões de pessoas imunizadas em todo o país, numa época em que a população ainda não havia alcançado 100 milhões.

O que nunca poderemos calcular é o número de vítimas que teriam sido poupadas se a divulgação tivesse sido imediata, acompanhada das devidas orientações aos cidadãos de modo a evitar o contágio entre indivíduos e favorecer o diagnóstico precoce da doença. Um governante que oculta, trata como irrelevante ou faz troça de doenças graves como a meningite dos anos 1970 incorre em negligência e crime de responsabilidade. Esse tipo de atitude não pode ser jamais menosprezado. E a história, bem, ela às vezes se repete. A primeira vez como tragédia, e a segunda, também.

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

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