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Escolas de samba repudiam devastação, fake news e “messias de arma na mão"

Camilo Vannuchi

20/02/2020 18h38

 

Os sambas-enredos do Carnaval deste ano parecem estar em sintonia com o espírito do tempo, sobretudo no Rio de Janeiro. As críticas ao governo Bolsonaro e à forma como o presidente vem conduzindo a administração federal e a opinião pública, algumas veladas e outras explícitas, já começam no desfile inaugural da primeira noite.

Coube à Estácio de Sá, de volta ao grupo especial, abrir a Marquês de Sapucaí com uma crítica oportuna à destruição do meio ambiente provocada pelas mineradoras. "Devastando a natureza no Pará dos Carajás / Da lua, de Jorge, eu vejo o Planeta Azul chorar", diz a letra.

Em seguida, o samba da Viradouro remete às ganhadeiras de Itapuã e homenageia as mulheres trabalhadoras, netas de escravo e que vivem de bicos, que ganham a vida vendendo acarajé, como benzedeiras ou lavadeiras no litoral da Bahia. "É a voz da mulher", diz a letra. Tradição, feminismo e luta de classe na veia.

A Mangueira, atual campeã do Carnaval, também desfila na noite de domingo e busca repetir o sucesso do ano passado com outro samba-enredo polêmico. Neste ano, seu tema é Jesus Cristo o lema é "A verdade vos fará livre", uma bofetada na cara de quem se elegeu com base em um esquema fraudulento de distribuição de fake news enquanto repetia João 8:23: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". "Eu sou da Estação Primeira de Nazaré / Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher", diz a letra. "Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão".

O Carnaval segue com outras ousadias em tempos de homofobia, feminicídio, perseguição à imprensa e milícias no poder. A Grande Rio desfila em defesa da tolerância religiosa e conta a história do babalorixá Joãozinho da Gomeia, negro e homossexual: "Eu respeito seu amém / Você respeita meu axé", diz o samba. Salgueiro homenageia Benjamim de Oliveira, o mais famoso palhaço negro do Brasil. Já a Mocidade presta homenagem a Elza Soares, cantora que completa 90 anos em 2020 e que tem sido, ela mesma, uma resistente com sua música ácida e explosiva.

Unidos da Tijuca e Paraíso do Tuiuti clamam em coro pelo futuro do Rio de Janeiro. "O Rio pede socorro / É terra que o homem maltrata", diz o samba-enredo da Tijuca. "A cidade das mazelas / Pede ao santo proteção", emenda a Tuiuti. No início da semana, o governador Wilson Witzel convidou Bolsonaro para assistir aos desfiles da Marquês de Sapucaí em seu camarote. É possível que ele arrume alguma outra coisa para fazer durante a evolução dessas duas escolas.

A União da Ilha fala de fome e miséria. A São Clemente aborda o tema das fake news. E a Portela, por sua vez, homenageia os nativos que habitavam o Rio de Janeiro antes da chegada dos portugueses. Com muitos passistas fantasiados de índios, diga-se, ecoando o protesto de Alessandra Negrini e, diante de uma claque digital polarizada, assumindo o risco inevitável de "cancelamentos" em série: "Índio pede paz mas é de guerra / Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo, nem se curva a capitão". Anotou?

 

Tradição engajada

Não é de hoje que o Carnaval é espaço de denúncia e resistência. Nos blocos e na avenida, a turma da folia sempre se prontificou a fazer ecoar reivindicações de caráter social, protestos e revoltas. Em meio à magia das alas, dos destaques e dos carros alegóricos, marchinhas e sambas-enredos há mais de um século reverberam, muitas vezes com sátira e irreverência, conflitos e disputas que são centrais para a sociedade brasileira em cada época. Principalmente para a parcela da população mais intensamente ligada à arte do Carnaval: as bases, o pessoal dos barracões, dos ensaios, dos afoxés, dos trios, a galera que trabalha o ano inteiro por um momento de sonho, o povo que vem descendo a serra cheia de euforia para desfilar.

Já em 1917, a música mais tocada no Carnaval do Rio de Janeiro foi "Pelo telefone", o primeiro samba gravado. "Pelo telefone" tinha sido registrada no ano anterior por Donga, que, no entanto, não era o único autor da música, criada coletivamente numa roda de samba. Outros gênios da música popular brasileira, como João da Baiana, Pixinguinha e Sinhô, haviam participado da composição coletiva, o que transformou o registro de Donga num dos episódios mais controversos da história da música no país. Fato é que já naquela época o samba servia para alfinetar as autoridades. Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, a letra original, aquela de criação coletiva que Donga modificou aqui e ali ao registrar a partitura, tecia uma crítica irreverente e mordaz à polícia, que fazia vistas grossas à jogatina, prática ilegal francamente tolerada. "O chefe da polícia pelo telefone mandou avisar / que na Carioca tem uma roleta para se jogar", dizia a primeira estrofe. Os versos teriam sido inspirados num caso verídico, de 1913, quando repórteres do jornal A Noite colocaram deliberadamente uma roleta no Largo da Carioca justamente para verificar se a força policial a recolheria, o que não aconteceu.

As marchinhas também cumpriram historicamente um papel de crítica política. Durante o Estado Novo, Jararaca e Ratinho, a dupla que lançou "Mamãe eu quero" (composta por Jararaca), não poupava Getúlio Vargas de suas piadas. Num dos esquetes, contado por Rosa Nepomuceno no livro "Da roça ao rodeio" (Ed. 34), os dois estabeleciam um diálogo sem pé nem cabeça. Abre aspas:

— Pois é isso!
— É verdade.
— E não é?
— Sim, senhor!
— E não é?
— É mesmo.
Aí chegava um outro cômico, fazendo o guarda, e dizia: 'Vocês estão presos! Não sabem que é proibido conversar política na rua?'

Outra dupla atuante nos anos 1930 e 1940 e que gravou algumas marchinhas satíricas de Carnaval foi Alvarenga e Ranchinho, autores de "Ê, São Paulo" e "Seu Condutor", entre outras. Não poupavam políticos. Sob Getúlio, passaram muitas noites na delegacia por criticar, no palco e nas letras, o então presidente, que eles chamavam de "Baixinho". "O marechal que não gosta de embrulho / pegou logo na pena e escreveu para o Getúlio / O Getúlio que é homem muito ativo / pegou a papelada e mandou para o arquivo", dizia um lundu de 1953.

Também a Marquês de Sapucaí foi, em diversos momentos de sua história, marcada pela crônica política. Um dos desfiles mais memoráveis foi o "Ratos e urubus, larguem minha fantasia", produzido pela Beija Flor em 1989. Na ocasião, Joãosinho Trinta vestiu trapos na comissão de frente, transformando os dançarinos em mendigos, e espalhou lixo pelo carro abre-alas. Não bastasse, levou para o sambódromo, também no primeiro carro, uma réplica do Cristo Redentor vestido de mendigo. Proibido pela Justiça na véspera do desfile, o Cristo foi coberto com um plástico preto e ganhou um adereço simbólico: uma faixa onde se lia "Mesmo proibido, olhai por nós!". A escola acabou em segundo lugar, mas o desfile foi aclamado pela ousadia e pela coragem.  Mais recentemente, foi a Paraíso do Tuiuti que rompeu com uma longa temporada de desfiles áulicos e surpreendeu o país com o desfile de 2018, no qual levou para a avenida críticas contundentes ao comportamento da mídia e da opinião pública durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Uma das alas fazia referência à manipulação dos manifestantes favoráveis ao impeachment e foi caracterizada toda com as cores da bandeira nacional, entre patos amarelos e destaques vestidos de marionetes batendo panelas com camisetas da seleção. Sobretudo, havia em um dos carros um personagem que fazia referência a Michel Temer, o vice que virou presidente, em trajes de vampiro, o "vampiro neoliberalista".

Nem só de meme e ciranda se faz oposição no país do Carnaval.

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

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