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Excelentíssima senhora secretária de Cultura Regina Duarte

Camilo Vannuchi

07/02/2020 01h57

Excelentíssima senhora secretária de Cultura Regina Duarte:

Antes de mais nada, quero lhe dar os parabéns pela nomeação e desejar-lhe sorte. Queria ter escrito antes, mas estava numa correria danada e só consegui fazer isso agora. De qualquer modo, peço desde já a gentileza de não publicar nenhuma foto minha. É verdade que a senhora não teria razão alguma para publicar uma foto minha, até porque não sou conhecido, não seria capaz de transferir nenhuma credibilidade à senhora. De qualquer forma, não custa nada esclarecer. Faço minhas as palavras da Carolina Ferraz e do Luiz Fernando Guimarães. Desejo sorte à senhora e, sobretudo, muito empenho e inspiração, o que não significa que votei em Bolsonaro ou que apoio este governo.

O fato é que tenho pensado muito na senhora. Sabe, Regina, fui um menino dos anos 1980. E um menino noveleiro. Não peguei Malu Mulher, infelizmente, e morro de frustração por causa disso. Queria ter visto e acho que ia gostar muito. Outro dia li um artigo de uma professora da USP chamada Heloísa Buarque de Almeida, a senhora conhece? Não, não é a Heloísa Buarque de Hollanda, é outra, antropóloga. Enfim, ela tem um artigo intitulado "Trocando em miúdos: gênero e sexualidade na TV a partir de Malu Mulher". Um montão de coisa escrita, diga-se, mas confirmou o que eu já imaginava sobre aquele seriado: foi um seriado foda!

Eu não peguei Malu Mulher, mas acompanhei muito de perto seu trabalho. Fui fã de Roque Santeiro, sabe? Aos seis anos, colecionava o álbum de figurinha, ficava acordado até tarde para ver a novela e ainda por cima, a senhora não vai acreditar, montei uma peça na escola que emulava um capítulo da novela. Eu era o professor que virava lobisomem. Típico.

Regina, eu adorava sua personagem. Adorava. Não entendia da missa a metade, mas achava o maior barato o romance da Viúva Porcina com o Roberto Mathias, a forma como o coronel ficava manso e latia que nem um cachorrinho quando encontrava teu personagem, só não gostava quando você berrava o nome da empregada – Miiiinaaaa! –. Onde já se viu tratar alguém aos berros desse jeito? Só muitos anos depois fui entender que era simbólico, semiótico, a inclusão de elementos escravocratas no enredo para caracterizar o espírito conservador daquela cidade, sobretudo entre os endinheirados. Ah, eu não gostava da música "Dona", viu? Só fui gostar muito depois. Naquela época, preferia ouvir Zé Ramalho, a música do lobisomem. Até comprei o disco da trilha, um bolachão, e adivinha quem estava na capa? A senhora!

Sabe, Regina, depois fiquei interessado em Vale Tudo. Acho que não era para a minha idade, por isso não era sempre que eu assistia. Gostava mesmo era de ver a abertura, com a Gal cantando a música do Cazuza, mas lembro da luta da sua personagem para abrir um restaurante, ficar com o Antônio Fagundes, e, o mais digno de todos os desejos, de todos os projetos: conseguir recuperar a filha Maria de Fátima, fazer dela uma boa pessoa.

Sabe o que eu acho? Acho que a senhora nos ensinou muito. Sobre gênero e sexualidade com Malu Mulher, sobre dignidade e perseverança com Vale Tudo, sobre luta de classes com Rainha da Sucata. Lembra daquele banho de lixo no baile de formatura? Uma das cenas mais revoltantes que eu já vi na vida. De inspirar rebelião.

Regina, quero desejar sorte à senhora porque gostava muito da senhora. Tenho lido muitos comentários por aí a seu respeito, muita gente dizendo coisas como "nunca me enganou", "nunca foi confiável", e a todo momento penso que comigo foi diferente, que, a mim, a senhora sempre foi uma boa inspiração. Ou talvez tenha sempre me enganado. Tô confuso.

Olha, eu também não sabia que a senhora tinha uma atividade empresarial fora das telas, como pecuarista. Nem que a onda conservadora lhe havia pegado de jeito. Quase tive um troço, confesso, quando vi a senhora no ano passado, num programa do Pedro Bial, o jornalista do BBB que escreveu a biografia do Doutor Roberto. Quarenta anos após a estreia de Malu Mulher, você se esquivou de responder sobre aborto e afirmou que nunca foi feminista porque achava que "não era por aí, que tinha caminhos intermediários, que tinha que negociar mais, não podia se afastar do homem". No final, ainda tascou que a personagem do seriado "estava muito feminista, aquilo que eu nunca quis ser". Não entendo o feminismo como uma decisão de "se afastar do homem", mas também longe de mim debater feminismo com uma mulher. Não sou tão sem noção assim. Nessa seara, meu papel é ouvir. Sempre.

Bom, a senhora agora é secretária de Cultura, uma Secretaria que, até bem pouco tempo atrás, era um ministério. É também, certamente, uma das pessoas mais conhecidas e mais respeitadas neste governo. E eu, secretária, me considero um cara da cultura. Escrevo livros, sabe? Mexo com comunicação e com literatura. Fiz um documentário, uma vez, e tenho vontade de fazer outro. De vez em quando componho umas canções. Foi como um cara da cultura que resolvi te escrever.

Regina, a cultura é um troço muito importante. Importante demais para não ser ministério, importante demais para ser negligenciada. Por isso tive sentimentos contraditórios quando soube que o seu nome estava sendo ventilado para o cargo. Por um lado, estranhei. Minha sensação era de que nenhum artista com o seu tamanho, o seu cabedal, a sua qualidade, pensaria em fazer parte do governo de um homem que persegue artistas, esculhamba a literatura e defende a tortura. Não orna, sabe? Por outro lado, poxa, a senhora era a Malu Fonseca, a Raquel Acioli, a Maria do Carmo. A senhora fez par romântico com o Antônio Fagundes. E também com o Lima Duarte, que recentemente chamou o atual chefe de Estado de "Sinhozinho Malta na Presidência".

Outro dia o ex-ministro da Educação e professor de filosofia política da USP Renato Janine Ribeiro fez um post muito interessante dizendo que a senhora era a melhor indicação até agora para o primeiro escalão do Executivo, ou a menos ruim, e estava "jogando sua biografia", arriscando sua "história pessoal". E que isso podia ser um bom sinal: uma pessoa só arrisca a biografia por compromisso com o serviço público – para "salvar a pátria", nas palavras do ex-ministro –, ou para "ganhar vantagem", o que parece pouco provável no seu caso. Não é todo dia que alguém troca um altíssimo salário na Globo por um alto salário como ministra, um salário que não chega à metade do anterior.

Na hora, pensei no ex-juiz Sérgio Moro, seu colega de ministério. Ele também não teria arriscado a carreira? Para quê? Janine Ribeiro chamou minha atenção para o óbvio: "Que carreira?", ele disse. Faz sentido. Moro é um juiz jovem, incensado pela operação Lava Jato, que tem um objetivo claro de galgar posições e, de duas uma: ser indicado para o Supremo Tribunal Federal no ano que vem ou se candidatar à Presidência, talvez em 2026. A senhora, não. A senhora tem uma carreira, uma baita carreira, com uma gigantesca folha de serviços prestados à cultura brasileira. Interpretou algumas das melhores personagens da nossa televisão, foi admirada no mundo inteiro. Moro tem mais a ganhar do que a perder. A senhora tem mais a perder do que a ganhar.

O que eu penso, Regina? Penso que seria ótimo se a senhora não perdesse. E penso também que há uma razão maior do que todas as outras para a enxurrada de críticas que vêm sendo dirigidas à senhora, a maioria muito justa: os que a criticam gostariam que a senhor estivesse do mesmo lado que eles na História. É isso. Eu mesmo, não vou negar, gostaria de caminhar ao seu lado. É desconfortável olhar pra Regina Duarte ou ler seu nome e desvincular a imagem da feminista independente e desquitada, da mãe que batalhava para abrir um restaurante e não perdia a esperança de trazer a filha de volta ao caminho da integridade e da retidão, da mãe amorosa que chega a trocar dois bebês na maternidade: o filho de sua filha, natimorto, pelo próprio filho, saudável. É muito desconfortável perceber que as trilhas se distanciaram, que já não caminhamos juntos.

Sou do tempo em que Cultura era ministério. E seu titular era o Gil. Talvez a reação à indicação da senhora, agora, tenha sido parecida com a da nomeação do Gil pelo ex-presidente Lula, em 2003. Gil também tinha uma biografia a arriscar. Uma carreira brilhante, como a sua, em favor da arte e da cultura. Arriscou e venceu.

Reitero meu desejo de que a senhora também vença. Nossa Cultura, em frangalhos, não pode se dar ao luxo de ver a secretária arriscar e perder.

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

Camilo Vannuchi