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Paulinho da Viola comemora 50 anos de "Sinal Fechado" e repudia novo AI-5

Camilo Vannuchi

05/12/2019 16h16

>> Em 1969, o músico venceu o Festival da Record com Sinal fechado, considerada por muitos uma síntese do "clima" da época. Hoje, acompanha as notícias com preocupação. "A gente corre sempre o risco de ter esses retrocessos", diz. "E quando chega alguém e aventa a hipótese de acontecer de novo, é para ficar assustado. É preciso ficar muito atento"

Paulinho da Viola tinha 27 anos quando subiu ao palco do Teatro Record, em São Paulo, para defender sua canção. Defender era o verbo utilizado nos anos 1960 sempre que algum cantor se apresentava num festival competitivo. Naquela noite de 6 de dezembro de 1969, aconteceria a grande final da quinta edição do Festival da Música Popular Brasileira, o Festival da Record. No páreo, 15 composições selecionadas em três eliminatórias. Algumas seriam defendidas pelos próprios compositores, outras por outros intérpretes.

Gonzaguinha, por exemplo, defenderia a música "Moleque", de sua autoria. Agnaldo Rayol defenderia "Clarice", de Eneida e João Magalhães, acompanhado pelo Trio Mocotó. Canções de Lupicínio, Eduardo Gudin e Tom Zé seriam defendidas respectivamente por Isaurinha Garcia, Márcia e pelo próprio Tom Zé, junto com os Novos Baianos, então uma novidade.

Filho do violonista César Farias, um dos chorões do conjunto Época de Ouro, liderado por Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola fora criado nas rodas de choro do Rio de Janeiro e, desde 1964, costumava se apresentar no restaurante Zicartola, administrado por Cartola e Dona Zica. Começou a ficar mais conhecido em 1966, ano em que gravou o primeiro álbum, em parceria com Elton Medeiros, e emplacou uma música em terceiro lugar no Festival da Record. Era Canção para Maria, parceria com Capinam defendida por Jair Rodrigues (o mesmo intérprete que cantou Disparada e garantiu o troféu para Geraldo Vandré, num empate inédito com A Banda, de Chico Buarque).

Paulinho também frequentava a ala de compositores da Portela. Havia inclusive criado o samba-enredo de 1966 da escola, "Memórias de um sargento de milícias" — que não tinha nenhuma relação com Carluxo ou Marielle.

Fato é que, às vésperas da grande final do festival de 1969, alguns críticos já apontavam a música de Paulinho como favorita. O festival, por sua vez, parecia fadado ao fracasso. Sem Solano Ribeiro, mentor e maior responsável pelo sucesso dos festivais de música popular brasileira, o Festival da Record havia modificado tanto suas regras que um influente jornal de São Paulo não hesitou em esculhambar o evento em letras garrafais: "Responda: você já viu festival pior do que este?", dizia o título de uma matéria publicada no Jornal da Tarde em 22 de novembro, após uma tumultuada primeira eliminatória. "O que ele realmente merece é que a música de Paulinho da Viola não se classifique entre as primeiras, porque é boa demais".

O episódio está narrado no livro A era dos festivais, de Zuza Homem de Mello (Ed. 34, 2003). "No desfigurado V Festival", escreve o autor, "as canções seriam avaliadas por um júri oficial, mas, logo depois de apresentadas, deveriam ser submetidas a um tribunal formado por dois grupos de debatedores adversários". Era o início do caça-likes no entretenimento brasileiro, fundamentado em comentários lacradores com a promessa de aumentar a audiência. "Não contente, a direção do Festival, pela qual respondiam Risso e a Equipe A, determinou ainda que seriam proibidas as guitarras, numa atitude de censura que se casava de véu e grinalda com o próprio governo militar".

No primeiro festival após o AI-5 (editado em 13 de dezembro do ano anterior), o "cale-se" já estendia seus tentáculos sobre o showbizz. Pela primeira vez, todas as canções foram submetidas à censura, o que dispersou artistas e intimidou emissoras.

Jornalistas e críticos acusaram o golpe (ou melhor, o recrudescimento dele) e notaram a falta de ousadia. Pela primeira vez, o público não lotou o teatro nas eliminatórias. Paulinho lembra que, naquela edição, já não havia canções de Chico, Caetano ou Gil, por exemplo, todos eles exilados na Europa. E as mudanças promovidas pela emissora não tiveram o êxito pretendido. Foi em todos os aspectos um festival mais frio e que mereceu menos destaque na imprensa.

O compositor carioca navegou como o velho marinheiro que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar. Quando os mestres de cerimônia Blota Jr. e Sônia Ribeiro anunciaram a canção vencedora, pouquíssimos discordaram.

"Segundo se comentava nos bastidores, foi a maior justiça feita em festivais de música no Brasil", anotou Zuza Homem de Mello.

Nem por isso, Paulinho ficou imune às vaias, uma tradição nos festivais da época. Havia, por exemplo, uma claque de garotas eufóricas torcendo por Agnaldo Rayol. E Sinal fechado, uma canção dedilhada, em modo menor, acompanhada por violão e orquestra, soava como sinfonia na várzea. De volta ao banquinho, após o anúncio, Paulinho quase não conseguiu repetir a canção. "O maestro (Lindolpho) Gaya fez um arranjo de cordas e teve de reger com fones (de ouvido)", conta. "E eu acompanhei com dificuldade, porque era um barulho muito grande". Leia trechos da entrevista com Paulinho da Viola mais abaixo.

Confira o anúncio dos vencedores no Teatro Record em 6 de dezembro de 1969 (a partir do minuto 11):

 

A letra de Sinal fechado, algo cifrada, emula um diálogo entre dois velhos amigos que se encontram no trânsito. "Olá, como vai?", "Eu vou indo; e você, tudo bem?" Há, em seguida, o esboço de um conflito pouco evidente, de geração ou de leitura da realidade. Um, mais otimista, diz que vai buscar seu "lugar no futuro". Ao outro, quase resignado, resta buscar "um sono tranquilo". A conversa, que se pretendia fluida e desimpedida, é atrapalhada pela pressa e pelo imponderável. "Me perdoe a pressa", diz um. "Eu também só ando a cem", diz o outro. "Pra semana, eu prometo, talvez nos vejamos, quem sabe". "Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas". "Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança".

Assista à reapresentação de Paulinho da Viola, logo após sua música ter sido anunciada como campeã:

 

"Sinal fechado foi a composição mais estranha entre todas as vencedoras da Era dos Festivais", afirma Zuza Homem de Mello. "Estranha e atraentemente hipnotizadora, um canto de sereia como uma conhecida canção americana do repertório de Nat King Cole, 'Nature boy'. Era tão deslocada na obra de Paulinho, com suas mudanças rítmicas, seus intencionais acordes arpejados de nona e o evasivo diálogo de sua letra, que, anos depois, quando Chico Buarque a gravou, muitos pensaram que fosse sua."

Chico lançou Sinal fechado no álbum homônimo de 1974, auge da repressão no Brasil. Visado, tinha quase todas as suas canções vetadas, o que o impeliu a gravar um disco somente com músicas de outros compositores: Gil, Caetano, Tom… A exceção era Acorda, amor, feita pelo próprio Chico, mas assinada por Julinho de Adelaide, seu codinome.

Paulinho da Viola conta que, ao longo desses 50 anos, muitas pessoas repetem que Sinal fechado é uma síntese do clima da época. Segundo ele, essa correlação existe, mas é intuitiva, não foi planejada. Conversamos sobre isso e também sobre os riscos de cerceamento da Cultura pelo atual governo, por telefone. Destacamos alguns trechos:

A inspiração

O que me inspirou foi uma pessoa que eventualmente me encontrava na rua e falava "preciso muito falar com você", mas ia embora sem dizer nada. Isso acontecia, não foi apenas uma vez. E eu achava aquilo estranho. "Tenho uma coisa importante para te falar", e nada. Usei isso de mote para fazer Sinal Fechado, que de certa forma reproduzia muito o clima da época, o clima de tensão, de preocupação.

"Não é do Chico?"

Quando foi lançado o compacto duplo, se você reparar, o nome Sinal fechado está em destaque e as outras três músicas com letras menores. A gravadora entendeu que ganhou o festival, então essa deveria ser a música que vai em destaque. Na verdade, ela foi engolida por Foi um rio que passou em minha vida. Foi um rio… estourou, foi um sucesso, e Sinal fechado só foi reconhecida quando o Chico (Buarque) gravou, depois. Muita gente achava que essa música (era dele). Eu me surpreendia em show. Quando eu cantava, as pessoas perguntavam: "ué, mas essa música não é do Chico?"

1969

Era uma época muito dura. Só o fato de você ter que submeter todo um trabalho de criação a um grupo que vai dizer o que pode e o que não pode é um absurdo total. E era isso o que o pessoal enfrentava. Era um clima de tensão, mesmo. Ao mesmo tempo, havia um sentimento de revolta e de reação contra o que estava acontecendo. Em determinado festival internacional, no começo da década de 1970, nós fizemos um ato contra a censura, (que constituiu em) inscrever as músicas e retirá-las. Isso foi noticiado na época.

A ameaça de um novo AI-5

Isso aí é um absurdo. Não tem o menor sentido. É uma coisa tão agressiva e tão direta, a forma como foi colocado, que a gente chega a especular se isso é apenas uma provocação ou não. Eu acho que não. A gente corre sempre o risco de ter esses retrocessos. Imagino que ninguém queira uma coisa dessas. E quando chega alguém e aventa a hipótese de acontecer de novo, é para ficar assustado. Viver tudo aquilo de novo? É preciso ficar muito atento. As forças que sempre se manifestaram contra isso, é preciso que elas fiquem atentas. Acho que ninguém quer isso, só um grupo muito pequeno. Você lê no jornal essas manifestações de pessoas que são alçadas a cargos importantes na área da Cultura, como a Funarte… No setor da Cultura está claro e evidente que há uma ação contrária a todo um trabalho que vem sendo feito há anos, trabalhos importantes, principalmente na Funarte. Você vê essas manifestações agora de algumas pessoas. É pra ficar realmente assustado. E começar a refletir sobre as consequências.

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

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