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Raul Seixas, vítima ou colaborador da repressão?

Camilo Vannuchi

31/10/2019 05h35

  • Entrevistamos o jornalista Jotabê Medeiros, que lança nesta sexta-feira o livro "Raul Seixas: não diga que a canção está perdida"
  • Documento confidencial do Centro de Inteligência do Exército do Rio suscita a suspeita de que o cantor delatou o parceiro Paulo Coelho em 1974;
  • Reconstituição dos depoimentos prestados pela dupla ao DOPS indica que interrogatório de Raul não foi condição para a prisão do escritor;
  • Confira algumas das letras do compositor baiano que foram vetadas ou modificadas pela Censura entre 1974 e 1980.

Amizade em ruína: prisão e tortura de Paulo Coelho em 1974 selou o afastamento dos dois compositores

 

Cuidado com o inimigo!

Era essa a tradução em português da expressão Krig-ha, bandolo!, impressa na capa do primeiro álbum solo de Raul Seixas, lançado em outubro de 1973. Quem sugeriu o título foi Paulo Coelho, parceiro de Raul em metade das 10 músicas do disco. Para a estratégia de lançamento, o escritor também havia sugerido a produção de um gibi, com 16 páginas, para distribuição gratuita nos shows. "A fundação de Krig-ha", anunciava a capa, logo acima dos nomes dos dois autores — Raul Seixas e Paulo Coelho — e da ilustradora, Adalgisa Rios, companheira de Paulo.

Na tarde de 27 de maio de 1974, uma segunda-feira, Raul foi intimado a depor no Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Chamou o parceiro para ir com ele, certo de que seria mais uma conversa sobre as letras da dupla, como já tiveram em outra ocasião, inclusive em Brasília.

Como os dois tinham emprego fixo e endereço conhecido, e nenhum tinha qualquer participação na luta armada ou algo do tipo, foram juntos.

Raul apresentou a intimação na recepção e entrou na frente. Saiu em meia hora e, inquieto, correu para um telefone público, tirou o fone do gancho e pôs-se a cantarolar em voz alta para ver se o parceiro entendia:

— My dear partner, the man want to talk to you, not to me…

O escritor não sacou a mensagem. Raul insistiu:

— They want to talk to you, not to me… They want to talk to you, not to me…

Em poucos minutos, quando Paulo Coelho já se dirigia para a porta, aos risos em razão do improviso de Raul, um agente ordenou que ele ficasse.

— Você, não. Agora é sua vez de depor.

Ao entrar na pequena sala de interrogatório, Paulo encontrou um exemplar do gibi sobre a mesa.

— Que merda é essa?

— Este é o encarte que acompanha o LP Krig-ha, Bandolo!

— O que significa isso?

— Cuidado com o inimigo.

— Inimigo? Que inimigo? O governo?

Pronto. Estava criado o impasse. Paulo Coelho tentava explicar que aquilo não tinha nada a ver com o governo, que o título estava impresso na língua fictícia usada por Tarzan e que os inimigos eram, quando muito, leões africanos.

O policial pegou o folheto nas mãos e quis saber por que o folheto ensinava a fazer estilingue. Em seguida, encasquetou com alguns trechos. "Nós temos andado pelo mundo e temos visto as cabeças baixas", dizia um quadrinho. "Temos visto também os carrascos, vítimas de um mecanismo do qual já perderam o controle", dizia outro. Mais adiante, uma terceira mensagem: "A coisa mais penosa do nosso tempo é que os tolos possuem convicção, e os que possuem imaginação e raciocínio vivem cheios de dúvida e indecisão".

Era literatura subversiva. Exatamente como os versos de Ouro de Tolo, que os agentes haviam escutado meses antes e logo rotulado como canção de protesto. Exatamente como os versos de Loteria da Babilônia, música que Raul apresentara um ano antes, no festival Phono 73, e que, aos policiais, parecera no mínimo suspeita: "Você aprendeu tudo enquanto estava mudo, agora é necessário gritar", dizia a letra. No final da música, ainda no palco do Anhembi, Raul rabiscara em seu próprio peito um símbolo inédito, semelhante a uma chave, e afirmara ao microfone: "a Sociedade Alternativa está nascendo aqui". Uma sociedade alternativa, em pleno governo Médici, só podia ser coisa de terrorista. Era preciso monitorar.

A certa altura do depoimento à polícia, Paulo Coelho comenta que as ilustrações do encarte tinham sido feitas por Adalgisa Rios, sua namorada.

— Vamos buscar a patroa — decide o investigador.

Naquela noite, Paulo e Gisa foram interrogados no Dops durante a madrugada, enquanto Raul, liberado após meia hora de conversa, descansava. Na manhã seguinte, o casal foi oficialmente liberado. Paulo e Gisa assinaram o alvará de soltura e entraram num táxi. Assim que deixaram o prédio, o carro em que estavam foi fechado por quatro outros veículos, todos sem identificação. Seus ocupantes, à paisana, saltaram dos veículos com armas na mão e empurraram Paulo e Gisa para os veículos em que estavam. Agora, seu destino era o DOI-Codi. Eram, formalmente, desaparecidos. A partir daquele momento, o interrogatório foi brutal, com choques e porradas. Gisa era veterana do movimento estudantil e filiada ao PCdoB, o que só fez aumentar as suspeitas de envolvimento com a guerrilha.

Somente em 2019, num artigo para o New York Times, Paulo Coelho revelaria detalhes sobre a tortura que sofreu e as marcas deixadas por aquela experiência. Gisa jamais o perdoaria por tê-la entregado aos carrascos e por não ter atendido a seus apelos, ainda no DOI-Codi, para que dissesse aos torturadores que ela não tinha nenhuma responsabilidade no conteúdo do gibi nem em nada que envolvesse a tal Sociedade Alternativa.

 

"Por intermédio do compositor"

Apenas agora, no entanto, Paulo Coelho teve acesso a um documento elaborado pelo Centro de Inteligência do Exército, o CEI, após o primeiro depoimento de Raul, aquele ao qual o compositor compareceu sozinho. O documento, datado de 22 de abril de 1974 e assinado pelo delegado de polícia Alladyr Ramos Braga, teve o condão de tirar o sono de Paulo Coelho e deve ter causado abalos sísmicos no túmulo de Raul, na Bahia. Ali, consta a seguinte frase:

1.2. O epigrafado (Raul), juntamente com o foragido Paulo Coelho Pinheiro, militante do PCBR, e Adalgisa Eliana Rios de Magalhães, do PCdoB, citada nas declarações de Douglas Alberto Milne-Jones (Geraldo) no DOI do II Exército, escreveu um panfleto intitulado "A fundação de Krig-ha", em anexo, que foi distribuído clandestinamente, contendo propaganda subversiva com mensagens justapostas e subliminares.

1.3. Considerando que tanto Paulo Coelho como Adalgisa Rios são elementos subversivos e se encontram foragidos, é possível, por intermédio do compositor, localizá-los e prendê-los.

Documento do CIE revelado em livro de Jotabê Medeiros sugere uma possível delação feita por Raul

À primeira leitura, o documento foi interpretado como um indício de que Raul teria delatado o amigo. Inclusive o próprio Paulo Coelho se manifestou concordando que isso pode ter acontecido, sobretudo porque Raul teria sumido após sua prisão, deixando de atender seus telefonemas e forçando um afastamento que em pouco tempo se mostrou irreversível. Não é bem assim. Documentos da repressão devem ser lidos sempre com cautela, em especial porque são pródigos em ocultar a verdade factual e revelar versões forjadas pelo próprio aparato repressivo.

Atendo-se ao que está escrito ali, podemos aferir que a única citação mencionada é de Adalgisa Rios por Douglas Alberto Milne-Jones, sem que nos seja permitido saber a situação, as condições e o que teria sido realmente falado a respeito dela. Também podemos afirmar que Paulo Coelho e Adalgisa são mencionados como elementos foragidos, o que não se aplica. Sobre Raul, o que diz o documento é que ele, Raul, poderia ajudar a localizar o casal, e não que o tenha feito.

É preciso fazer duas ressalvas. Primeiro, lembrar que fazia parte do jogo da ditadura o propósito de fustigar um clima da desconfiança, medo e traição entre os opositores do regime. Funcionava como um método. Às vezes, havia a determinação para que fossem presas duas pessoas de uma mesma célula guerrilheira, ambas já localizadas pela repressão. Mesmo assim, sempre que possível, delegados optavam por desmembrar a operação de captura, justamente para perpetrar a versão de que o primeiro detido delatou o segundo. Em 24 horas, essa suspeita poderia causar um estrago na organização, promovendo desconfianças e até justiçamentos.

A segunda ressalva é que, naquele momento, ninguém precisaria de Raul Seixas para localizar Paulo Coelho e Adalgisa Rios. Nenhum deles era clandestino. Tinham endereço fixo e uma comunidade de amigos e familiares no Rio de Janeiro. Até o mês anterior, e durante um ano, Paulo Coelho era empregado no Jornal O Globo. Qualquer banco de dados da Philips, ou o departamento do RH da empresa, seria capaz de localizar e municiar a polícia política com o paradeiro de Paulo e sua companheira.

Tudo isso serve para corroborar menos uma eventual delação de Raul Seixas e mais a trama ardilosa, quase sempre eficaz, com que a repressão operou desde sempre. Neste sentido, é possível concluir que a estratégia foi bem-sucedida. Se havia por parte da ditadura a intenção de provocar desconfiança ou rusga entre Raul e Paulo, inclusive como estratégia para minar a força criadora da dupla e motivar o afastamento entre os dois, esse desejo foi alcançado. Os dois fariam mais dois discos juntos, que já tinham sido contratados antes do episódio do Dops — Há dez mil anos atrás e Novo Aeon — mas tanto a sintonia quanto a genialidade ficam prejudicadas em relação às obras primas da parceria, concentradas nos dois primeiros álbuns: Krig-ha, Bandolo! e Gita.

Uma das primeiras canções de Raul esquartejadas pela censura é Check Up: saem diempax, valium 10 e triptanol 25 e entram medicamentos com nomes inventados. "Deixa de ser liberada por ser inconveniente o conteúdo"

 

Especulações e certezas

Autor da biografia "Raul Seixas: não diga que a canção está perdida", com lançamento nesta sexta-feira (1/11), Jotabê Medeiros reconhece que o músico baiano nem sempre foi a melhor fonte de informações sobre episódios de sua própria vida. Muitas das declarações dadas por ele sobre ditadura e repressão precisam ser relativizadas. Ele gostava de inventar. Criava para si uma espécie de mitologia, algumas das quais ia aperfeiçoando ou modificando conforme a época, o contexto ou a conjuntura. Raul e Paulo Coelho se conheceram num dia em que Raul cismou de conhecer o autor de um dos artigos e foi até a redação. Paulo Coelho, seu editor, era também o autor do texto, camuflado por um pseudônimo. Por mais de 10 anos, no entanto, Raul repetiu a lenda de que havia conhecido o parceiro na praia, numa ocasião em que ambos viram um disco voador, e mais ninguém.

Foi exatamente o que aconteceu em relação a um hipotético caso de tortura seguida de exílio nos Estados Unidos, duas ilações que, segundo parentes e amigos mais próximas, jamais aconteceram. Em mais de uma ocasião, especialmente numa entrevista concedida à rádio Record FM de São Paulo, em 1988, Raul conta que sofreu um sequestro seguido de cárcere privado e tortura, provavelmente em Realengo, onde havia um presídio usado por presos políticos, e que teria sido convidado pela ditadura a sair do país no início de 1974. Raul só teria retornado ao Brasil, ainda segundo essa narrativa, quando alguém em nome do Estado o localizou em Nova York e pediu para que ele voltasse (afinal, agora ele vendia centenas de milhares de discos, havia se transformado num patrimônio nacional). Para Jotabê, pessoas próximas de Raul atribuem essas invenções à irreverência dele. "Ele zombava dessa fronteira tênue entre vida e morte, segurança e perigo, e chegava a ser inconsequente", diz o autor.

Ao mesmo tempo, documentos atribuídos a Raul são indícios de uma possível obsessão com o tema da repressão. Em um texto de sua autoria, datado de 1973 e publicado em outro livro, "O baú do Raul", de 1992, o músico chega a esboçar uma aparente frustração por nunca ter sido preso, numa época em que, embora não vendessem tantos álbuns quanto Raul, artistas como Chico, Caetano e Gil, todos presos e exilados, gozavam de um respeito ou uma complacência da crítica acima da média:

"Como eu ainda não fui preso, eles (os jornalistas) dizem que sou artista de consumo, ou seja, agente do Dops ou CIA. Para que deem crédito ao meu ponto de vista (já que é mais avançado que o deles) eu preciso, como Caetano, ser expulso do país e ter músicas censuradas, ser preso como Chico, queimar fumo para não ser 'careta', cheirar pó, senão é 'careta'".

Rock das Aranhas foi vetada pela censura em 1980 porque descreve, de modo chulo e direto, um relacionamento homossexual feminino.

No novo livro, Jotabê também chama atenção para a longa trajetória de músicas censuradas, muito mais por motivos morais ou comportamentais do que por inflexão política. E cita como exemplos duas letras bastante famosas que tiveram de ser alteradas para atender às imposições dos censores. Em Como vovó já dizia, foi preciso tirar os versos "quem não tem papel dá o recado pelo muro" e "quem não tem presente se conforma com o futuro", substituindo-os respectivamente por "quem não tem filé come pão e osso duro" e "quem não tem visão bate a cara contra o muro". Curiosamente, o mais irreverente e ousado dos versos permaneceu intocado, sem que ninguém se desse conta de que tem a ver com o consumo de maconha: "quem não tem colírio usa óculos escuros". Outra vítima da censura destacada por Jotabê foi Rock das Aranhas, aquela em que duas mulheres botam as aranhas para brigar. A execução pública da música, na rádio ou na TV, permaneceu vetada até o fim da ditadura militar, em 1985.

Serviço

Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida
Jotabê Medeiros
Ed. Todavia
416 páginas
R$ 69,90
E-book R$ 39,90

 

Sobre o Autor

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor. Atua nas áreas de direitos humanos e direito à comunicação. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). É mestre e doutorando em Ciências da Comunicação e integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e colunista no site da Carta Capital. Atualmente, trabalha na elaboração de um livro-reportagem sobre a vala clandestina do cemitério Dom Bosco, em Perus, onde foram ocultadas mais de mil ossadas durante a ditadura militar.

Sobre o Blog

Espaço dedicado a ampliar o debate sobre direito à memória e à verdade por meio da publicação de notícias e análises relacionadas à ditadura militar (1964-1985) e à justiça de transição. Episódios recentes que inspirem à denúncia de violações de direitos, à crítica do autoritarismo ou à defesa da democracia também são assuntos deste blog.

Camilo Vannuchi